24 Julho 2006

Diálogos com o Acaso 1

Advogo o diabo
(quiçá rogada)
libelo flagrante
fragmentos rodopiam aleatórios
ou nem tanto


Resisto ao fácil girar da maçaneta
Não quero consumir-me por palavras
eternizar-me fóssil neste castelo
Longo edíficio que construíste
incitante belo princípe de barbas azuis

Tremulo palpito receio
com penca de chaves nas mãos a cair
não entro

Quisera ser hieroglifo
Quebra cabeça que não se encaixa (a não ser em peito seu)
a mais uma de suas fadas enfadadas secas e aniquiladas

a limitar-me em previsível circunferência nestas tão linhas retas
e esvair-me em progressiva e lenta degradação rumo a morte.
Onde as palavras restam vivas, na triste condição de serem demasiadas ou módicas
reverberando somente passado quente na tela fria

Enquanto o amor... ah.

N,'

19 Julho 2006

12 Julho 2006

A Espera


Rafal Olbinski

Hai-kai

Um beijo fechado
Vou guardá-lo aqui
depois eu abro
(entoado à duas bocas)

11 Julho 2006

Aluamento







.................................


Medéia traída
Rainha da Noite em chamas
E a lua em redondeza nada óbvia
.
Pelos crescem
corpo alonga
faro fino
.
Força que me arrebata
cio de lua louca
água que corre escorro socorre
.
fluo
no não confluo
conluio
.
eu
meu umbigo
meus uivos
.
em silêncio intuo
não mais comigo ululas
.
Ficam somente
eu
meu umbigo
meus uivos
.
e a lua

09 Julho 2006

de outros escritos

"objeto do meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ardo e não vejo

seja a estrela que me beija
oriente que me reja
azul amor beleza

faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja"


Paulo Leminsky

metamórphosis



"Quando flor é passarinho e passarinho pode virar flor..."

Maria Thereza

Desfoquei-me naquela imensidão
Minhas partículas dágua deliquesceram nonada
De peito aberto percebi vibrante que do todo não mais diferençava

08 Julho 2006

Chá com Thê e Sophia


Uma laranja que queria ser um feijão
ou uma bunda com seu botão
.
A torta de aspargos que acabou virando de palmito
.
A voz que antes de se saber já era grito
.
As pontes que traçamos em nossos diálogos
que intentam sobreviver aos vícios citadinos
e se desdobram para preservar tão caro instinto.
.
..
(Preservemos!)

Alguns achados de David * 3


As árvores estão apertadas pela rua
Eu canso na cidade
A cidade me aperta
Vejo um leão selvagem
Apertado
Ele briga com um tigre
Apertado
O leão morreu
O azar foi do leão.


Faz inverno nesta montanha
e eu primavero

Convido flores, receitas, amigos e amor
(minha casa co(f)lorida)

Marco teima no absurdo do mundo
e sente frio

Vivemos na mesma montanha
a vida se enforma neste óbvio espaço comum

Marco no inverno
e eu primavero.

07 Julho 2006

Bêntico Oceano



Por horas a fio o mar fitei
Em silêncio permiti inundamento
Agora o guardo
(ainda em silêncio)
cá dentro

02 Julho 2006

Orifício


Boca, orifício, canal, por onde a criança entoa simulacros.
Os membros fragmentados, os corpos em voz; boca em que se articulam as profundezas e superfícies. Boca de onde cai a voz do outro, fazendo revoltear por cima da criança os altos ídolos e formando o super-eu. Boca donde os gritos se recortam em fonemas, morfemas, semantemas: boca donde a profundidade de um corpo oral se separa do sentido incorporal. Nesta boca aberta, nesta voz alimentícia, a gênese da linguagem, a formação do sentido e a chispa do pensamento fazem passar as suas séries divergentes.

Foucault (1997, pp.61-62)